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Entrevista com

Nuno Saldanha

22 - Fevereiro - 2007

 

Delfim Corral - Quando é que você foi para angola?

Nuno Saldanha - Em 1972, como voluntário, depois de ter acabado a instrução militar na Escola Práctica de Engenharia em Tancos.

De Luanda fui directamente para o Lucusse (Moxico) de pois de ter apanhado aquele maravilhoso combóio mala em Benguela.

DC - Não sentiu algum receio em ir para um teatro de guerra?

NS - Com 24 anos não se tem medo de nada. Além disso com a minha especialidade militar tinha recebido uma excelente instrução e considerava-me bem preparado. Como sabe "os azares acontecem só aos outros" . Além disso tinhamos um slogan que dizia que a especialidade de minas e armadilhas só nos enganamos 2 vezes... a primeira e a última quase sempre coincidentes. Como vê, não tinha que me preocupar.

DC - A sua ida para Angola foi feita de que forma? (barco, avião,...)

NS - Por mera sorte embarquei exactamente no primeiro vôo da FAP para Angola num Boeing 707 hoje já fora de circulação. As "hospedeiras" (hoje chamam-se Assistentes do Ar) eram cabos (homens) da FAP portanto as 8 horas de viagem não dava para "lavar a vista" porque, embora simpácticos, eram feios e tinham voz grossa que não atributos próprios para nos encantarmos.

DC - Quando chegou a Luanda quais forma as suas primeiras impressões sobre esta cidade?

NS - Saí de Lisboa a 14 de Janeiro (dia de anos de minha Mãe) à meia-noite com cerca de 9 graus. Cheguei a Luanda, ás 8 horas da manhã, com 32 graus. Achei que não iria aguentar uma comissão de 2 anos (acabaram por ser três).

Fui para a Messe que não tinha ar-condicionado, e no dia seguinte hospedei-me no velhinho Hotel Globo, que tinha ar-condicionado, de onde fiquei cliente sempre que ia a Luanda.

Achei uma cidade extraordinária, de gentre trabalhadora e onde tinha muitos amigos a cumprir serviço militar. As praias eram magníficas e a vida noturna era um espanto. Só lá fiquei uma semana a aguardar transporte para o Lucusse.

Aproveitei para conhecer pela primeira vez o Aerangol que era uma companhia aérea privada que estava ligada á minha empresa de Lisboa. Foram uns dias extraordinárias que procurei gozar o melhor que pude aproveitando essa hospitalidade que só se sente naquelas terras.

DC - Como é que, na sua perspectiva, a tropa via o desenrolar da guerra colonial?

NS - Quando cheguei em 1972 a situação estava totalmente controlada muito embora o MPLA fizesse tentativas de incursão pelo Leste vindos da Zâmbia ou seja, pelo Lucusse, Gado Coutinho e Camgamba. Nada do que se parecesse com os tempos tenebrosos de 1961.

Todos achávamos que tinhamos uma missão a cumprir porque considerávamos aquela terra como nossa e de todos os que lá viviam. Lembro-me de ter ficado muito satisfeito ao confirmar que a nossa acção como molitares tinha uma forte componente social junto das populações mais afastadas e que a nossa relação com a população local, especialmente no mato, era optima e fraterna.

DC - Está a falar daquilo a que se chama de psico-social?

NS - Não. As acções psico eram muito esquematizadas e programadas, retirando-lhes a componente humana espontânea. Preferi mais tarde dar um cunho pessoal a algumas dessas acções tendo tido autorização superior para "ir um pouco mais longe". Assim, em vez de acampar em tendas de campanha que levávamos connosco (o pelotão tinha normalmente 6 homens, incluindo um enfermeiro, e uma viatura Unimog) procurava pernoitar numa cubata, normalmente a do soba, para demonstrar que não era diferente e para retirar o cunho militar à visita. Confesso que de algumas vezes me foi dificil porque nem sempre a higiene era a melhor mas, por contrapartida, ganhei muitos amigos entre os sobas do Leste que me protegeram mais tarde, noutras ocasiões. Bons tempos em que se agia com verdade e respeito pelos costumes de cada um.

DC - Não encontrou colegas seus de armas com medo de sair do quartel?

Não. Isso nunca foi verdade. Bem pelo contrário. Quando se sabia no quartel, pelo rádio, que tinha havido uma emboscada e que alguns dos nossos estavam em dificuldades, os primeiros a aparecer na parada equipados para partir eram os soldados, não raras vezes primeiro que os Oficiais. Posso-lhe garantir, de palavra de honra, que isso nunca aconteceu na minha Companhia. Tal não invalidava o receio natural e a apreensão do que nos podia vir a acontecer. Éramos novos e voluntariosos mas não éramos loucos.

DC - Quando é que foi parar a Saurimo?

NS - A ida para H.Carvalho foi um prémio ao meu Batalhão pelo desempenho da missão no Moxico durante cerca de 10 meses. Contudo, na minha especialidade, a diferença foi pouca porque me deslocavam de avião ou heli para os locais mais sensíveis. De qualquer forma não havia o perigo, em HC, de sofremos um ataque nocturno porque estávamos numa cidade. O mesmo não se podia dizer do Lucusse muito embora nunca tivessemos tido nenhum.

Cheguei a HC em Novembro de 1972

DC - Gostou da cidade à primeira vista ou teve que se ir habituando?

NS - Aquilo era um oásis mesmo que não tivessemos vindo do Lucusse. Cinema, restaurantes, hotel, comércio e uma gente maravilhosa. Fiz lá muitos amigos e tenho muitas saudades de todos que me acarinharam e que me ajudaram a cumprir a minha comissão longe da família e dos amigos que estavam na metrópole. Gente séria e trabalhadora porque tão longe de tudo e de todos não havia lugar para preguiçosos.

Eu vinha de Cascais e tinha muitas saudades do mar porque sou um amante dos deeesportos náuticos. Nunca pensei adaptar-me tão bem e, se o consegui, foi devido à ajuda e amizade dos que lá estavam.

DC - As condições de vida num quartel como é que eram?

NS - Boas porque era uim quartel moderno. Boa cozinha, uma boa sala do soldado e camaratas grandes e arejadas. Eu vivia na messe e dormia num quarto de dois com outro camarada que hoje é padrinho de uma das minhas filhas.

DC - Está a falar do quartel de Saurimo?

NS - Sim que, desculpe, eu continuo a chamar de Henrique de Carvalho.

No Lucusse as condições eram totalmente diferentes. Tudo construção em madeira, parada de terra batida e cozinha ao ar livre e água por gravidade de um depósito sobre-elevado. Os sanitários eram muito austeros e de uma maneira o conforto geral era muito pouco. Eram um quartel de campanha igual a tantos outros, localizada junto à pista de aviação e rodeado por 3 kimbos de 3 sobas diferentes. Havia também um Chefe de Posto que tinha as suas próprias instalações.

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