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A CHEGADA DA FERROVIA

Em 04 de outubro de 1880, o governo imperial autorizava a construção da companhia de estrada de ferro que ligaria São Carlos ao terminal da via férrea que chegava até Rio Claro.

As plantações de café da região estavam em pleno desenvolvimento e o preço desse produto no mercado externo alcançava cada vez mais resultados favoráveis. Era necessário que se apressasse a chegada do café dos fazendeiros sãocarlenses ao porto de Santos. A solução mais adequada para o momento era a ferrovia estender-se até a nossa região.

As companhias inglesas dominavam a construção das ferrovias e o alto custo desse empreendimento fez com que ficássemos submetidos a elas. Em 06 de setembro de 1865, a primeira locomotiva chegava oficialmente à São Paulo.

Em 1867 a ferrovia chegava até Jundiaí, que passou a ser a principal cidade para onde o café sãocarlense era transportado (no lombo de animais), para chegar até o porto de Santos.

Em 1872 era a vez de Campinas ser alcançada pela ferrovia, mas dessa vez pela Companhia Paulista de Estradas de Ferro e Comunicações Fluviais, empresa genuinamente brasileira e paulista. Em agosto de 1876 a estrada chegava a São João do Rio Claro (atual cidade de Rio Claro), a apenas dez léguas de nossa cidade, o que facilitou em muito o trajeto de nosso produto até Santos.

Já nesse momento os cafeicultores sãocarlenses pretendiam que a ferrovia chegasse até nossa cidade.

    "... a imaginação sãocarlense se deliciava em esperanças de que, pouco mais tarde, o estridente sibilar da locomotiva impeliria a carreiras vertiginosas os veados e as emas dos campos do Feijão." (1)

Em edição extraordinária a Câmara Municipal se reunia em março de 1876 para representar junto ao Imperador a conveniência do prolongamento dos trilhos até São Carlos, dentro de um projeto de ligação com Mato Grosso, passando por Santana do Parnaíba.

Mas os dirigentes da Companhia Paulista tinham a intenção de que a ferrovia passasse por grandes centros produtores de café: os vales do rio Tietê e do Mogi; as cidades de Jaú e Ribeirão Preto. Eram terrenos de acesso quase plano, facilitando a implantação da ferrovia, com menos custos e tendo prosseguimento para o interior. Ao passo que a cidade de São Carlos estava localizada na escarpa do planalto, de acesso difícil e também não existia interesse, por parte dos dirigentes da Companhia Paulista, em atingir o Mato Grosso, o que fazia dessa obra muito onerosa e sem interesse econômico.

Para os cafeicultores sãocarlenses, principalmente Antônio Carlos de Arruda Botelho - futuro Conde do Pinhal, era uma questão de sobrevivência que a ferrovia chegasse até São Carlos, prevendo que se isso não acontecesse a cidade ficaria à margem do progresso.

Antônio Carlos de Arruda Botelho também tinha interesse pessoal que a ferrovia chegasse até São Carlos, por ser o principal produtor de café e possuidor grande extensão de terras nessa região. Assim sendo, sabendo que teria um grande lucro com o café e uma grande valorização de suas terras, empenhou-se nesse projeto de forma integral.

Com o ajuda em forma de capital de outros fazendeiros da região, amigos e homens influentes da época, Antônio Carlos de Arruda Botelho conseguiu constituir a Companhia de Estrada de Ferro de Rio Claro, cuja carta de concessão foi outorgada pelo Governo Imperial em 04 de outubro de 1880.

Além da ligação com o terminal ferroviário da Paulista em Rio Claro, obtinha o privilégio de estender seus trilhos até Araraquara e Jaboticabal e de atender, futuramente, as regiões de Brotas, Dois Córregos e Jaú. Assim, a Paulista fica na dependência da nova ferrovia, sendo impedida de prosseguir com seus planos de atingir, por contra própria, tanto Jaú como Ribeirão Preto.

Vale ressaltar que o trajeto originalmente feito pela Companhia de Estrada de Ferro de Rio Claro passava por terras do tenente coronel Antônio Carlos de Arruda Botelho - Barão do Pinhal (título de nobreza concedido pelo Imperador em 1880). Esse empreendimento valeu ao então Barão do Pinhal e futuro Conde muito prestígio econômico e político.

Em 15 de outubro de 1884, a ferrovia chega oficialmente a São Carlos em grande festa.

    "Era São Carlos saudando a chegada do progresso no século das luzes à terra de São Carlos Borromeu, graças, exclusivamente, à decisão e à capacidade de seus filhos." (2)

Em meados de 1888, a Companhia Paulista mostrou interesse em adquirir a recém inaugurada linha, mas a proposta feita pela Companhia Rio Claro não foi aceita. No mês seguinte o Conde do Pinhal venderia a Companhia a um grupo de capitalistas ingleses e três anos depois a Companhia Paulista, reconhecendo seu erro, viria a comprar a Companhia Rio Claro dos ingleses por um preço muito maior do pedido pelo Conde do Pinhal.

A cafeicultura foi grande responsável pela urbanização da cidade de São Carlos e com a chegada da ferrovia essa urbanização de intensificou.

A ferrovia do complexo cafeeiro desempenhou papéis importantes: impulsionou a urbanização, possibilitou a viabilização e a ampliação da acumulação capitalista da região e do país. Isso torna-se evidente:

    "...pelas repercussões da implantação da ferrovia sobre a urbanização desse núcleo - contribuindo para a dinamização econômica da região e da cidade, facilitando o deslocamento populacional e gerando atividades urbanas dela decorrentes..." (3)

A localização da estrada de ferro no alto da terceira colina, levou até lá a urbanização. Estenderam-se até o pátio da estação as ruas General Osório, Bento Carlos (então Rua da Victória) e de Santa Cruz. Foram abertas simultaneamente as ruas paralelas à Rua S. Carlos: Conselheiro José Bonifácio, Aquidabam, Riachuelo e Visconde de Inhaúma.

    (1) BRAGA, C. C. S. Contribuição ao Estudo da História e Geografia da Cidade e Município de São Carlos. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro. p. 187.

    (2) NEVES, A. P. São Carlos - Na Esteira do Tempo.

    (3) DEVESCOVI, R. C. B. Urbanização e Acumulação - um estudo sobre a cidade de São Carlos. Arquivo de História Contemporânea - UFSCar. 1987. p. 36-37.


Texto: Historiadora Rita de Cássia de Almeida

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