A CULTURA DO CAFÉ
ORIGEM
O café origina-se da Etiópia e acredita-se que foi cultivado pela primeira fez no Oriente Médio por volta de 850 depois de Cristo. Seu nome deriva de Kaffa, uma província da Etiópia onde acredita-se que apareceu pela primeira vez - para se ter uma idéia do longo tempo que o café já é conhecido do homem basta mencionar que surgiu no mesmo ano da invenção da pólvora na China, 19 anos depois da fundação de Dublin (atual capital da Irlanda) e 24 anos antes da colonização da Islândia (este dois fatos realizados pelos Vikings). Da Etiópia espalhou-se pelo Oriente Médio, de onde provinha – mais precisamente da Arábia -, todo o café comercializado no mundo até o séc. XVII. Aos poucos, mercantes alemães levaram o cultivo da cultura para a Índia e no início do séc. XVIII foi introduzido na América por colonizadores franceses nas Guianas. A maioria das árvores de café do Hemisfério Ocidental pertencem a uma planta somente. Ela foi carregada de um jardim botânico da França para a ilha de Martinica pelo capitão Gabriel Mathieu de Clieu. Ele manteve a árvore viva durante uma ardorosa viagem onde teve de dividir seu limitado estoque de água potável com a planta. A vinda da planta para o Brasil é um tanto cômica, parecendo até cenário de um filme. Conta a história que um certo sargento paraense, Francisco de Melo Palheta, foi enviado às Guianas para resolver um problema diplomático e, secretamente, contrabandear mudas de café para o Brasil. Teve sucesso nas duas missões: fez os franceses reconhecerem o limite da fronteira e gastou todo o seu poder de sedução para convencer a esposa do governador da região a lhe ceder algumas sementes. Em 1722, a planta passou a ser cultivada no norte do Brasil e foi conquistando outras regiões. Em pouco tempo, o país tornou-se o primeiro produtor mundial de café, posto que mantém até hoje, com uma safra anual de 17 milhões de sacas, ou 1 milhão de toneladas, seguida bem distante pela Colômbia, e, mais distante ainda por México, Guatemala e Costa Rica.
A EXPANSÃO CAFEEIRA
Das pequenas plantações nas vizinhanças da Corte, entre 1810 e 1820, os cafeeiros espalham-se por todo o vale do rio Paraíba, primeiro na parte fluminense e depois na parte paulista e no sul de Minas. Em meados do séc. XIX, ocupam parte das terras das antigas lavouras de cana-de-açúcar e algodão e invadem o chamado Oeste paulista, inicialmente a região de Campinas e Sorocaba, e em seguida Ribeirão Preto e Araraquara. No início do sé. XX, os cafezais cobrem uma extensa faixa paralela ao litoral das regiões sul e sudeste, que vai do Paraná ao Espírito Santo. A cafeicultura ganha a primazia entre as monoculturas exportadoras, desbancando a tradicional agricultura canavieira. O sucesso e a vigorosa expansão da cafeicultura no sudeste brasileiro durante o séc. XIX devem-se a uma feliz combinação de fatores. De um lado, uma conjuntura externa favorável, com o crescimento do consumo na Europa e EUA. Ao mesmo tempo, crise em importantes regiões produtoras, como o Haiti, Ceilão e Java. Com isso os preços mantêm-se em alta nos mercados consumidores. Por outro lado, no Brasil há terras e escravos subutilizados nas lavouras tradicionais de açúcar e algodão e solos novos e férteis, como as terras roxas no interior paulista. A rápida expansão da cafeicultura cria também seu primeiro problema: a escassez de mão de obra provocada pela interrupção definitiva do tráfico africano em 1850. A solução encontrada é a atração de imigrantes estrangeiros, com apoio oficial. Nas últimas décadas do século XIX, as fazendas de café recebem milhares de imigrantes europeus – italianos, portugueses, espanhóis, alemães, suíços, eslavos- e asiáticos , que vêm trabalhar em regime de parceria, recebendo por produção. Com a substituição do trabalho escravo pelo trabalho livre em parceria ou assalariado, a cafeicultura não apenas cresce como apressa o fim da escravidão.
POLÍTICA DO CAFÉ
Nas primeiras décadas do século XX, a continuidade do crescimento é reforçada por uma política governamental bastante favorável aos interesses do setor, que garante crédito, formação de estoques e intervenções no câmbio para compensar eventuais baixas dos preços internacionais. Isso tem um efeito positivo: mantém o crescimento da cafeicultura, possibilitando aos fazendeiros investir parte de suas rendas em atividades comerciais e industriais, dinamizando a economia urbana. Más tem igualmente um efeito nocivo: no final da década de 20, a produção interna (28milhões de sacas anuais) cresce muito mais do que a demanda externa (15 milhões de sacas). Depois da Revolução de 1930 e dos abalos provocados pela crise econômica mundial iniciada nos EUA em 1929, o governo Vargas mantém o apoio ao setor cafeeiro por meio do Depto. Nacional do Café e, ao mesmo tempo, decide impulsionar a industrialização no país. Para reduzir a oferta e melhorar os preços, manda queimar café estocado e erradicar cafezais, pagando pequena indenização aos produtores. A longo prazo, a produção e a exportação estabilizam-se, sob a supervisão do Instituto Brasileiro do Café, criado em 1952. Na década de 50, as exportações de café ainda representam mais da metade do total exportado e o Brasil mantém-se como maior produtor mundial. Mas o reinado absoluto do café na economia brasileira chega ao fim. A cafeicultura e toda a atividade agroexportadora têm um poderoso rival no setor industrial, que, na Segunda metade do séc. XX, é o carro-chefe do desenvolvimento econômico nacional.
A CAFEICULTURA HOJE
Não existe um cadastro nacional de propriedades mas, baseado em estudos realizados nos maiores estados produtores, estima-se que o café seja produzido em cerca de 220.000 propriedades em todo o país. A área plantada é de dois milhões de hectares e a lavoura de café emprega mais de três milhões de pessoas. O área média de plantio é de nove hectares por propriedade, cuja área média total é 45 hectares. A produtividade média chega a 15 sacas/hectare. Essas médias, porém, escondem grandes diferenças. As pequenas fazendas, com menos de 10 hectares, constituem mais de 70% do total de propriedades mas produzem pouco mais de 40% da safra. Nelas, o sistema de cultivo é, na grande maioria das vezes, familiar, pouco sofisticado e utilizador de pouca mecanização, embora existam exceções com ótimo nível técnico. Na maioria das vezes, a produtividade é baixa. As fazendas médias e grandes começam em 20 hectares e chegam, em alguns poucos casos, a superar os 5.000 hectares. Em geral, são exploradas como empresas, possuem pessoal qualificado e modernas técnicas de administração. Estas fazendas são responsáveis por cerca de 55% da produção nacional e podem alcançar altos níveis de produtividade. Contudo, essa forma de cultivo é intensiva no uso de capital e exige altos investimentos.
DISTRIBUIÇÃO GEOGRÁFICA
Ao longo do tempo, o plantio se deslocou em termos geográficos. Nos anos imediatamente posteriores à 2a. Guerra Mundial, o cultivo estava concentrado nos estados de Paraná e São Paulo. Após a devastadora geada de 1975, novos áreas de plantio foram incentivadas por estímulos governamentais, principalmente em Minas Gerais e no Espírito Santo. Desde então, Minas Gerais se tornou o maior estado produtor. Em anos recentes, a maior parte do aumento de produção tem sido através da melhoria da produtividade, com significativa redução das áreas plantadas com café, em vez da expansão territorial. Nos últimos anos, a única grande fronteira do café que surgiu foi o oeste do estado da Bahia que dispõe de condições similares às do Cerrado mineiro. O deslocamento da produção do Paraná e de São Paulo para estados como Minas Gerais, localizados mais ao norte do país, diminuiu, em grande medida, a vulnerabilidade da produção brasileira às ameaças climáticas. Nos últimos 105 anos, foram registradas 34 geadas atingindo regiões cafeeiras. A mais devastadora da história recente foi a de 1975. Ainda que não seja completamente imune às geadas, a localização do parque cafeeiro atual significa que os danos causados por possíveis geadas serão menores do que aqueles registrados no passado.
COMO É PRODUZIDO
A Colheita: É a parte mais importante. Na Colômbia e na Costa Rica – cujos cafés estão entre os melhores do mundo -, os colhedores escolhem um a um os frutos vermelhos e maduros. No Brasil, porém, usa-se uma técnica chamada derriça: ao passar a mão no galho, de cima para baixo, o colhedor arranca os frutos de uma só vez. A Secagem: O mais comum é deixar o café colhido em imensos terreiros, secando ao sol ao sol, durante uns quinze dias. Depois de seco fica fácil retirar a casca, separando os grãos. Existe, ainda, o método da via úmida: os cafés são mergulhados em água quente, para retirada da polpa. Desse jeito, torna-se mais rara a formação de compostos químicos capazes de prejudicar o sabor da bebida. A Prova: Os degustadores das empresas produtoras de café provam, em média, 100 cafés por dia. Quando os grãos chegam às fábricas, é colocado um punhado em pequenas tigelas medida com água quente. Após, então, é provado e o seu produto final, testado. A Estocagem: Só seguem para a estocagem os cafés com qualidade aprovada. Dentro das sacas, nunca pode haver mais de 1 % de impurezas. Afora isso, os cafés se dividem em oito tipos, conforme a proporção de grãos defeituosos, como os imaturos ou com fungos. Na prática, são encontrados no mercado cafés do tipo 4 (com 4,5 % de grãos com defeitos) ao tipo 8 (com 25 % a 30 % de grãos defeituosos). A Torrefação: O tempo de torrefação não contribui para o gosto forte ou suave. O que realmente importa é a combinação de grãos de procedências diferentes, que dá a característica de cada marca. Os cafés são misturados na imensa torradeira, onde podem ser acrescentadas as essências usadas nos aromatizados no ano de 1993 no mercado brasileiro. A Distribuição: Saído dos moedores, o café é embalado. O Brasil consome 600 milhôes de pacotes de um quilo/ ano, o que dá para fazer 48 bilhões de xicrinhas (50 ml). Em terceiro lugar, perdendo para Alemanha e EUA respectivamente. Existem, provavelmente mais de 10 bilhões de árvores que efetuam o cultivo do café no mundo. As árvores de café são tropicais do tipo sempre verde do gênero Coffea da família Rubiacae. Embora existam no mínimo 60 espécies, somente duas tem interesse comercial importantes. As variedades da espécie C. arabica, o arbusto da Arábia, fornece o grosso de café do mundo. Ganhando em importância porque é mais resistente às doenças e é mais útil para se fazer o café instantâneo aparece o gênero C. robusta. Os híbridos de café estão sendo desenvolvidos para melhorar qualidade e se conhecer tipos particulares de crescimento e produção. Em geral, a qualidade do café melhora com a altitude onde é plantado. O gênero arabica característica da maioria dos cafezais plantado no hemisfério ocidental, é plantado, em sua maioria, entre 600 e 1.800 metros, enquanto, que os cafés do gênero Robusta da África florescem entre 180 e 730 metros de altitude sobre o nível do mar. Ás árvores, quando em cultivo, são podadas para permanecerem entre 1,5 e 4,5 metros de altura, pois facilita o controle da produção e a colheita. Elas começam a dar seus frutos entre 3 e 5 anos de idade e continuam por mais 10 a 15 anos. O início da produção começa com o desabrochar de bonitas flôres brancas entre as brilhantes e verdes folhas. Poucos dias depois, as flôres murcham, então, os frutos aparecem. Primeiramente verdes, os frutos tornam-se vermelhos quando totalmente maduro, amadurecimento este que demora entre 6 a 14 meses, dependendo da espécie da árvore. Os tipos de solos preferidos pelos produtores são os solos profundos, férteis, bem drenados e ricos em matéria orgânica. A terra roxa exibe essas características, estando em segundo plano as terras roxas misturadas. Outras terras férteis se prestam; dentre elas a massapé solos argilosos), a chamada terra salmourão, que se caracteriza pela presença de minúsculos fragmentos rochosos entre as finas partículas que a constituem e, finalmente, as terras arenosas, que são as menos indicadas, porque perdem rapidamente a fertilidade natural. O plantio de café pode ser feito em terras novas de matas ou em solos cultivados com um certo tempo de cultivo. No primeiro caso, depois do desbravamento (roçada, derrubada, queimada), segue-se o alinhamento, isto é, a marcação das covas, que pode ser em quadrado, em quincôncio (triângulo) e em contorno. E este último o mais aconselhável, porque as carreiras de plantas, seguindo as curvas de nível, facilitam a defesa contra a erosão e permitem o emprego de máquinas agrícolas no cafezal.
NOVAS TÉCNICAS DE PRODUÇÃO
No passado recente, destacaram-se quatro importantes evoluções tecnológicas no plantio. A primeira é o sistema de plantio adensado. Os sistemas antigos eram baseados em uma densidade de 1.200 a 1.600 plantas/hectare. Já as modernas técnicas de adensamento permitem densidades entre 5.000 a 10.000 plantas/hectare. O adensamento é um fator importante na redução de custos devido ao uso mais econômico da terra, da mão de obra e dos defensivos agrícolas. Este tipo de plantio é especialmente indicado para regiões de topologia acidentada, como o sul de Minas Gerais e o Paraná. A segunda inovação importante é a crescente mecanização das lavouras cafeeiras. O Brasil tem uma renda per capita maior do que quase todos os outros produtores de café, inclusive na área rural. Nos sistemas tradicionais de plantio, que fazem uso intensivo de trabalho manual na manutenção e na colheita, a mão de obra é o principal componente dos custos de produção. Para reduzir tais gastos, muitos produtores estão substituindo o trabalho manual por máquinas como tratores e colheitadeiras. Para acomodar o movimento das máquinas entre os pés, não se pode plantar tantas cafeeiros por hectare quanto no sistema adensado. Os plantios são feitos em sistema de renque aberto com densidades de 2.500 a 5.000 plantas/hectare. A mecanização é indicada para terrenos planos, como o Cerrado e o oeste da Bahia. A terceira inovação é a irrigação, seja por pivôs ou outros meios, que é cada vez mais usada para compensar possíveis déficits hídricos. Dessa forma, a produção brasileira torna-se mais resistente às secas que têm uma incidência maior nas novas áreas de plantio, como Minas Gerais e Bahia, comparado com os estados mais ao sul do país. A quarta inovação é a criação de mudas em suspensão.
PERSPECTIVAS DE MÉDIO PRAZO
Em conclusão, apresento a seguir algumas considerações sobre a evolução do Brasil nos próximos anos. O ano safra 1999/2000, será marcado pela escassez. Frente a uma demanda superior a 30 milhões de sacas, o Brasil deverá colher entre 24 e 27 milhões. Para mitigar os efeitos negativos do déficit de produção que se anuncia, a União precisará acelerar as vendas de café dos estoques públicos. Por estar sujeito a acidentes climáticos, como as geadas (por mais que sua ameaça tenha diminuído nos últimos anos), e ao ciclo bianual, os estoques estratégicos do governo são de fundamental importância na política cafeeira do Brasil. O país precisará sempre manter um estoque regulador para complementar o abastecimento em épocas de escassez. As oscilações da produção nacional provocadas pela natureza têm um efeito ocasionalmente desequilibrador sobre as exportações mundiais. Para atenuar a baixa produção dos últimos anos, foram vendidas, desde 1994, mais de 8,1 milhões de sacas. Nos últimos dois anos, o governo vendeu cerca de 3,9 milhões de sacas, uma média mensal de 164.000 sacas. Em 1999/2000, esta média precisaria subir para cerca de 300.000 sacas/mês a fim de complementar de forma adequada o abastecimento do mercado. Hoje, o estoque público totaliza 8,7 milhões de sacas e é composto de cafés com mais de doze anos de idade. Levando em conta as vendas adicionais que serão necessárias durante a safra 1999/2000, o estoque oficial deverá cair a níveis críticos, abaixo de cinco milhões de sacas, em meados do ano vindouro. Após a pequena safra 1999/2000, as colheitas seguintes deverão incorporar a produção dos plantios feitos nos últimos anos. Nas últimas dez safras, a média da produção nacional tem estado em torno de 24 milhões de sacas. Ainda é cedo para avaliar o potencial de produção do renovado parque brasileiro. A safra passada, 1998/1999, que superou 35 milhões de sacas, é uma indicação de que estamos entrando em uma era de colheitas maiores. Contudo, essa safra foi a maior dos últimos dez anos e, devido ao ciclo bianual, poderá ser difícil alcançar tal nível de produção de forma consistente. O aumento da produção brasileira traz com ela grandes desafios. No plano interno, o maior mercado consumidor de café brasileiro continuará a ser o próprio Brasil. O produtor brasileiro precisará continuar a abastecer o mercado de grande porte mais dinâmico do mundo. O consumo per capita do Brasil ainda tem um grande potencial de aumento. Após os efeitos negativos de curto prazo da crise econômica, provocada pela mudança do regime cambial do país, o consumo interno deverá voltar a crescer a taxas mais elevadas do que as de outros grandes mercados. No plano externo, o Brasil é um dos poucos países produtores com potencial para aumentar a produção de café arábica e suprir o crescimento previsto da demanda em países consumidores nos próximos anos. Além do Brasil, os países com maior tendência a incrementar a produção são: México, Índia e Indonésia (Sumatra). No entanto, a maioria dos outros produtores de arábica terão dificuldades em expandir o volume de suas colheitas. Abalados pelas recentes catástrofes naturais, tanto Colômbia quanto os países da América Central terão que dar prioridade ao investimento na reconstrução da infra-estrutura em vez de expandirem o plantio. Os países com maior capacidade de expansão de produção, como o Vietnã, estão localizados na Ásia e concentram sua atividade na variedade robusta. Assim sendo, o Brasil estará em condições de recuperar as fatias de mercado perdidas nos últimos anos de baixa produção. Parte de um eventual aumento de produção também precisará ser destinado à recomposição do estoque regulador público que deverá ficar abaixo dos níveis considerados mínimos no ano que vem. Portanto, o aumento da produção brasileira deve ser visto não como uma ameaça, mas como um fator de equilíbrio essencial da oferta mundial na próxima década. Para os outros países produtores, o Brasil funciona como um verdadeiro laboratório vivo. À medida que esses países se desenvolverem, terão que enfrentar muitas das mesmas questões que defrontaram o Brasil nos últimos anos: a queda relativa da importância do café na pauta de exportações; a redução da intervenção estatal na economia cafeeira; a busca de novos modelos institucionais que permitam um maior envolvimento do setor privado; a melhoria da infra-estrutura logística; o crescimento do custo da mão de obra rural; a concorrência com outras culturas; a modernização das técnicas de produção; e o efeito estabilizador de um mercado interno forte. Nesta trajetória, nem todos os caminhos escolhidos foram acertados e nem todas as soluções que funcionaram no Brasil terão igual sucesso em contextos diferentes. Contudo, os erros e acertos do Brasil oferecem importantes lições para os outros países produtores na busca da adaptação aos novos tempos de liberalização e globalização do mercado.
MERCADO CHINÊS É META DA INDÚSTRIA DE SOLÚVEL
Um percentual muito pequeno de chineses consomem café atualmente. A maioria da população do país, que já passou de um bilhão de pessoas, tem preferência quase que absoluta por uma boa xícara de chá, por uma questão de tradição. Mas o representante da Abics (Associação Brasileira da Indústria de Café Solúvel), Mauro Moitinho Malta, enfatizou que a indústria de solúvel pode reverter esse quadro e encontra-se preparada para atender o mercado chinês, lembrando que os países que são tradicionalmente consumidores de chá têm uma maior aptidão por começar a consumir café a partir da utilização do café solúvel, cujo fácil preparo, é bastante parecido com o do chá. Na opinião de Mauro Malta, devido às similaridades de preparo entre o chá e o café solúvel, a população chinesa não teria que enfrentar a barreira do aprendizado, o que pode ser considerado um ponto positivo importante para o aumento do consumo do café no país. Sonho de produtor - Li Guoxin lembrou que a China está se desenvolvendo numa velocidade muito grande e que quando os chineses começam a comprar um produto, o consumo do mesmo cresce muito devido à grande densidade populacional do país. O Embaixador finalizou convidando os brasileiros a implementar esforços no sentido de se divulgar mais o produto café em seu país. "É preciso que o café faça mais propaganda na China", sugeriu ele. Aproveitando a deixa, o representante da Abecafé, Joaquim Libâneo Ferreira Leite, disse que todo produtor brasileiro sonha com que cada chinês consuma ao menos um cafezinho por dia, fazendo uma clara relação entre a população da China, superior a um bilhão de pessoas e o iminente crescimento da demanda pelo café do Brasil.
PREÇOS
Após atingir seu ponto mais baixo no ano de 1992, quando o preço médio de exportação foi US$ 57/saca, os preços do café verde se recuperaram nos últimos anos. No ano de 1998, o preço médio foi de US$ 141/saca, 26% abaixo da média de US$ 190/saca alcançado em 1997, recorde desde 1985. O típico café brasileiro, processado via seca, não é cotado nas bolsas internacionais. Em conseqüência, o exportador brasileiro comercializa o produto usando como referência o Contrato "C" da Bolsa de Nova York. Em comparação com essa bolsa, o preço do café brasileiro mostra grandes oscilações. A diferença para a bolsa aumenta em períodos de abundância relativa do produto nacional e diminui em períodos de relativa escassez. É importante ressaltar que, no momento, o café brasileiro não sofre qualquer imposto na saída do país. Na lei, existe um imposto de exportação cuja alíquota foi fixada em zero. Até o final de 1997 quando os produtos primários ficaram isentos de tal imposto, a exportação também pagava 13% de Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Serviços (ICMS). O produtor foi o maior beneficiado pela redução dos impostos. Nos anos 1970 e 1980, eles recebiam menos de 60% (em certas épocas, menos de 50%) do preço externo. A maior parte da diferença era apropriada pelo governo. Hoje, o produtor recebe mais de 90% do preço internacional, ajudando na sua competitividade.
SAFRA 1999/2000 (EM MILHARES DE SACAS DE 60KG )
A safra a ser colhida em meados do presente ano está estimada, pelos associados da Abecafé, em 26,6 milhões de sacas. O Brasil é tradicionalmente um produtor de café arábica, variedade da qual deverão ser colhidos 22,35 milhões de sacas. O Brasil também é produtor de café robusta, chamado no Brasil de conillon. A safra desta variedade está estimada em 4,25 milhões de sacas. A safra 1999/2000 deverá ser 26% menor que a anterior, que foi superior a 35 milhões de sacas. O motivo da redução é o efeito do ciclo bianual do cafeeiro. O esforço requerido para produzir uma safra grande tende a exaurir a planta, levando a uma diminuição da produtividade na safra seguinte. A safra 1998/99 foi a maior nos últimos dez anos, gerando substancial redução na safra 1999/2000. No maior estado produtor, Minas Gerais, prevê-se uma safra de 13,5 milhões de sacas, sendo 7,35 milhões no Sul e Oeste, 3,1 milhões no Cerrado e 3,05 milhões na Zona da Mata (incluindo 100.000 sacas de café conillon). Na produção de café arábica, Minas Gerais (13,4 milhões de sacas) é o maior estado produtor, seguido por São Paulo (3,1 milhões), Paraná (2,55 milhões), Espírito Santo (1,55 milhão), Bahia (0,9 milhão) e pelos demais estados produtores (0,85 milhão). A safra de conillon está concentrada no Espírito Santo (2,45 milhões de sacas) e Rondônia (1,4 milhão). Os outros estados produzirão apenas 400.000 sacas. Em comparação com a safra passada, todas as regiões produtoras, com a exceção de Rondônia, deverão sofrer quedas acentuadas. A baixa de produção de café arábica deverá ser de 27%, incluindo declínios expressivos em Minas Gerais (-30%), São Paulo (-27%) e Espírito Santo (-26%). Entre os principais estados produtores, apenas o Paraná (-10%) apresentou um redução menos expressiva em virtude da entrada em produção de novos plantios e da continuada recuperação das áreas mais afetadas pelas geadas de 1994. A queda de produção de café conillon (robusta) foi menor (-14%). A redução da safra de conillon do Espírito Santo (-22%) foi compensada, em parte, por um aumento de produção em Rondônia (+12%).
VOLUME DE EXPORTAÇÃO
O Brasil é o maior exportador mundial de café. Nos últimos anos, a participação do país nas exportações mundiais declinou em função do déficit de oferta provocado pelas geadas e pela seca ocorridas em 1994. Em 1996, sua fatia de mercado desceu a 20%. Todavia, a recuperação da produção na última safra possibilitou um aumento da participação brasileira para 23% das exportações mundiais em 1998. A grande vantagem do país, e que o torna um caso singular na cafeicultura mundial, é o fato de ser capaz de fornecer um leque completo de produtos: café verde e industrializado de todos os tipos e em todas as formas. O Brasil também possui um eficiente setor exportador e uma infra-estrutura logística moderna e flexível, capazes de atender às necessidades do mais exigente comprador.
PESQUISAS
Uma pesquisa feita no Brasil no ano de 1989, feita pelo médico Darcy Lima da Universidade Federal do Rio de Janeiro, descobriu porque os fumantes tem mania de tomar café enquanto traga um cigarro. Segundo o médico, a cafeína age nos pulmões relaxando determinados músculos, dilatando os brônquios – canais pulmonares por onde passa o ar. Com isto, ela compensa tanto a contração provocada pelas crises asmáticas como a causada pelo tabaco; explicando-se, assim a associação entre o prazer do cafezinho e o cigarro. Em Agosto de 1994, doze pesquisadores da UFRJ serviram a alunos do primeiro grau da rede pública fluminense cafezinho para 50 000 estudantes entre 7 e 15 anos de idade. Com o intuito de quebrar o tabu de que menores não podem beber cafezinho e, que ao invés de causar malefícios, o café pode elevar o QI. Chegou-se a conclusão que o cafezinho aumentou, em média, 5 % o QI dos estudantes. Afora isto, já era sabido que o hábito do cafezinho facilita o aprendizado e a prática de esportes. Além, de ajudar na prevenção às drogas. Na Inglaterra, médicos do Instituto de Psiquiatria de Londres revelaram que quem bebe café diariamente chega a elevar a sua capacidade de raciocínio entre 4 % ou 5%. A memória melhora na mesma proporção. Afirmaram isto com base no exame em 7000 pacientes, constatando que a cafeína induz a produção da chamada noradrenalina – substância que ativa o estado de alerta. Toda vez que se presta atenção em alguma coisa, por exemplo, há muita noradrenalina jorrando entre as células cerebrais. Nos EUA, os médicos do hospital John Hopkins, um dos maiores do país, estão usando pastilhas de cafeína concentrada no tratamento de drogados, pois comprovou-se que os dependentes de tóxicos bebedores de cafezinho apelam para as drogas com menos freqüência. Mas existem dúvidas de que isto deve-se somente à cafeína. Cientistas australianos, em 1990, notaram uma molécula, diferente da cafeína, que atua nos receptores opióides – espécies de fechaduras nas células cerebrais. Quando algo se encaixa nesses receptores é como se fosse apertada no cérebro, ativando sensações de prazer e saciedade. Existem receptores opióides para moléculas de maconha, cocaína, álcool e nicotina. A tal molécula encaixa-se como chave mestra em todos eles. Resultado: nas poucas horas em que permanece no cérebro, antes de ser degradada, ela literalmente ocupa o lugar da droga, freando o desejo de consumi-la. Descobriu-se, recentemente, que doses generosas da bebida pode reduzir o risco de contaminação por metais pesados, como o chumbo e o cobre. Esses elementos tóxicos estão dissolvidos na água das cidades grandes, mas, segundo cientistas australianos, 90 % deles ficam retidos no pó e não passam pelo coador. Apesar de todas essas boas notícias há uma negativa, um estudo feito pela cientista holandesa Marina Grubben, da Universidade Agrícola de Wageningen, mostrou que a bebida aumenta em 18 % o nível de homocisteína no sangue. Trata-se de um aminoácido, componente de inúmeras proteínas que, acredita-se, leva a ataques cardíacos.
CURIOSIDADES
O consumo de café provavelmente começou por volta do séc. VI d.C.. Uma referência ao café aparece em um manuscrito médico de 900 d.C.. O café era usado primeiramente como alimento, mais como um tipo de medicamento, e um dos ingredientes do vinho. O café como é bebido atualmente, surge por volta de 1300 d.C.. Na metade do séc. XVII, a bebida foi introduzida na Europa e na América do Norte. As cafeterias tornaram-se pontos de encontro para discussões literárias e políticas. Os governadores freqüentemente ameaçavam fecha-los, o Rei Charles II da Inglaterra denominou-os de "Seminários de revoltas e motins". Quando se tornou conhecido que os grãos de café torrado davam o sabor ao café, os grãos torrados foram esmagados, fervidos em água e, então, passaram a ser consumidos em maior escala. No Egito, no início do séc. XVII, o açúcar foi adicionado para cortar o amargo do café e o uso do café com leite se torna comum no final deste mesmo século. Na Escandinávia e nas colônias inglesas da América do Norte, ovos foram adicionados ao café com o mesmo motivo de reduzir o amargo da bebida. O expresso se tornou popular no ano de 1940, quando se veio a ser a bebida mais servida nas cafeterias que surgiam próximos ao campus das universidades. Novamente centro de discussões políticas e literárias e, também, de poetas e cantores populares. As cafeterias foram os locais prediletos dos fãs dos beatles e dos hippies nas décadas de 1950 e 1960 respectivamente.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
- Almanaque Abril 1997, ano 23, Editora Abril, Editorial Antártica, Chile.
- Comptons Interactive Encyclopedia, version 3.00, @ Comptons Learning Company. Comptons New Media, Inc.
- Enciclopédia delta Larousse, Volume XIV, 2ª Edição, Editora Delta S.A. Rio de Janeiro-BR.
- Revista Super Interessante, ano 8, Número 08, Agosto de 1994.
- Revista Super Interessante, ano 9, Número 11, Novembro de 1995.