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As divas vitaminadas

Com letras românticas e baladas
ternas, intérpretes como Adriana
Calcanhotto e Ana Carolina
conquistam o público lésbico

Sérgio Martins


Ricardo Fasanello/Strana

ADRIANA CALCANHOTTO
Maior vendagem: 400 000 cópias do CD Público
Versos que causam frisson:
"Eu quero entregar suas mentiras
Eu vou invadir sua aula
Queria falar sua língua
Eu vou publicar seus segredos"
(Da canção Mentiras)
"Estou amando loucamente
A namoradinha de um amigo meu"
(Da canção Namoradinha de um Amigo Meu, apresentada pela cantora em seus shows)


Quem freqüenta os shows de estrelas femininas da MPB muito provavelmente já assistiu à seguinte cena: no meio da apresentação, moçoilas bastante exaltadas se levantam para gritar elogios como "Poderosa!", "Gostosa!" ou "Vitaminada!". Repita-se: moçoilas. E não são poucas. O público composto de lésbicas constitui uma fatia razoável do mercado de música brasileira. Elas, evidentemente, não elegem como ídolos sujeitos musculosos, que cantam versos do tipo "Lá vem o negão, cheio de paixão". Gostam mesmo é das cantoras – mais de umas do que de outras, para ser exato. E são muito fiéis em suas escolhas. "Toda gravadora quer ter uma artista que agrade às lésbicas no seu catálogo, porque isso garante uma vendagem mínima de 100.000 discos a cada lançamento", garante um badalado produtor musical, que prefere manter seu nome no anonimato. O leque das eleitas é amplo. Dolores Duran, que despontou nos anos 50 com seus bolerões sobre amores impossíveis, faz sucesso até hoje. Das décadas de 60 e 70, vêm Gal Costa, Maria Bethânia, Simone e Angela Ro Ro. Nos anos 80, Marina Lima caiu nas graças do público lésbico ao interpretar Mesmo que Seja Eu, da dupla Roberto e Erasmo Carlos. "Eu só fui descobrir que era um hino depois que cantei numa prisão feminina e as meninas vibraram mais com essa música do que com as outras canções do show", diz Erasmo.

As vitaminadas do momento são Ana Carolina, Adriana Calcanhotto e Cássia Eller. "O coração das meninas bate mais forte quando ouve essas vozes", derrete-se Laura Bacellar, dona da editora de livros GLS. As três divas começaram no circuito alternativo, tocando em espaços pequenos como o Teatro Rival, no Rio de Janeiro, que tem lotação máxima de 450 pessoas. Ali burilaram suas músicas e ganharam confiança para encarar públicos maiores e mais diversificados. Hoje, essas três e mais Zélia Duncan (que vendeu 90.000 cópias de seu último CD, Sortimento) são líderes no mercado pop nacional. Adriana chegou à marca de 750.000 cópias com o disco ao vivo Público, do ano passado, e a coletânea Perfil. Ana Carolina vendeu 250.000 unidades de seu álbum Ana Rita Joana Iracema e Carolina e saboreia a repercussão da música Quem de Nós Dois, estourada nas principais rádios do país. Cássia Eller já é quase disco de platina com o Acústico MTV. Elas lotam casas como o Canecão, no Rio de Janeiro, e o DirecTV Music Hall, em São Paulo.


Leo Feltran
MARINA LIMA
Maior vendagem: 250 000 cópias do álbum Todas ao vivo
Versos que causam frisson
:
"Você precisa de um homem pra chamar de seu
Mesmo que esse homem seja eu"
(Da canção Mesmo que Seja Eu)
"Se todo mundo é mesmo gay
O mundo está na minha mão"
(Da canção Na Minha Mão)

A mineira Ana Carolina, que encontrou guarida na casa de Cássia Eller quando chegou ao Rio de Janeiro, foi adotada pelas lésbicas desde o seu primeiro disco, que leva seu nome e foi lançado dois anos atrás. Não é para menos: boa parte de suas letras é composta no masculino. "É uma questão poética. Um verso como 'eu tô manero' é mais fácil de rimar do que 'eu tô manera'", explica Ana. Suas performances, entrecortadas por textos da poeta Ana Cristina Cesar e da escritora Elisa Lucinda, são imensamente apreciadas pelas moçoilas do primeiro parágrafo. "O público homossexual é muito exigente e, por isso, aprecia o meu trabalho", acredita a cantora. A baiana Maria Bethânia já anunciou que incluirá uma canção de Ana Carolina em seu próximo álbum.

A gaúcha Adriana Calcanhotto tem como marco principal de sua carreira a canção Devolva-me, hit da jovem guarda, que entrou na trilha da novela Laços de Família e foi uma das cinco músicas mais tocadas no país em 2000. Mas pergunte a uma fã lésbica de Adriana o que mais lhe agrada na cantora. Ela certamente destacará as letras que transbordam paixão, como a de Mentiras, de 1993. É de Mentiras aquele trecho "Eu vou invadir sua aula / Queria falar sua língua / Eu vou publicar seus segredos". Também é motivo de intensa admiração a releitura de E O Mundo Não Se Acabou, do compositor baiano Assis Valente – cujos versos "Beijei na boca de quem não devia / Peguei na mão de quem não conhecia" permitem leituras de duplíssimo sentido. Nos seus shows, Adriana se despe da timidez habitual e anuncia as canções com historinhas engraçadas. Por exemplo, conta que precisava ouvir Devolva-me escondida do pai, no quarto da empregada. "Se ele implicava com a música, imagine então o que aconteceria se ele me pegasse COM a empregada", costuma dizer. Adriana também gosta de brindar sua platéia mais fiel com uma interpretação de Namoradinha de um Amigo Meu, de Roberto Carlos. Sem mudar, é claro, o gênero dos protagonistas desse clássico do iê-iê-iê. O pessoal vem abaixo.


Divulgação

ANA CAROLINA
Maior vendagem: 250 000 cópias do álbum Ana Rita Joana Iracema e Carolina
Versos que causam frisson:
"Hoje eu levantei com sono, com vontade de brigar
Eu tô manero pra bater, pra revidar provocação
Vê se não enche, não me encosta
Tô bravo que nem leão"
(Da canção Implicante)


O público lésbico não gosta de ver reproduzido nas letras o estereótipo da mulher ríspida e masculinizada. Excetuadas as canções de Cássia Eller, uma roqueira que gosta de chocar, elas preferem as músicas de fossa, de versos delicados e românticos. "A mulher tem aquela coisa bonita de se apaixonar e pegar na mão", explica a intérprete bissexual Laura Finocchiaro, autora do Hino à Diversidade, tema da última parada gay em São Paulo. Vai aqui uma palinha: "Abrace a diferença / Viver é diferente / Se a gente diz que é gente / Não tem o que nos vença". Laura acha que todos os homossexuais – masculinos ou femininos – devem sair do armário. Fora do palco, isso já virou regra.

 

AS PIONEIRAS

Dilmar Cavalher/Strana
Fábio Ghivelder
A cantora Angela Ro Ro: sucesso nos anos 70 Simone: ícone há quase trinta anos

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