O SAGRADO E A NATUREZA: A ANIMA MUNDI DOS ALQUIMISTAS
COMO RESGATE DO FEMININO NA ESPIRITUALIDADE.
Observação: Em novembro de 2001, este artigo foi publicado pela revista
PROJETO HISTÓRIA número 23 edição especial sobre Natureza & Poder,
que pertence ao Programa de Pós-graduação em História da PUC de São Paulo.
É considerada uma das melhores revistas de História produzidas no Brasil.
Ela foi lançada pela EDUC (Editora da PUC-SP) e pela FAPESP (Fundação de
Apoio à Pesquisa do Estado de São Paulo).
Site: www.revistaprojetohistoria.hpg.com.brOutra observação : As notas citadas neste artigo, com a bibliografia consultada,
estão no final do texto.
Está muito em voga a utilização do termo "Natureza" como referência para
um modo de vida mais adequado, para a visualização de outras possíveis dimensões
no tocante à existência humana ou mesmo como ponto estratégico para uma
ação política. Tal fenômeno começou a ganhar maior impulso a partir dos
movimentos de contestação juvenil dos anos 60 que ficaram conhecidos pelo
nome de Contracultura.
Convêm esclarecer, no entanto, que é necessário diferenciar a Natureza
enquanto espaço geográfico, palco da atuação concreta do homem através da
ocupação de territórios, da extração de matérias-primas para a indústria
ou da pesquisa científica, da Natureza enquanto arquétipo presente de maneira
marcante no inconsciente coletivo da humanidade desde os seus tempos primordiais:
?Olhando para trás na história, podemos dizer que o que vemos agora como
duas coisas, e que, por motivo de clareza, tentamos manter separadas, a
saber, aquilo que em termos junguianos chamamos de inconsciente coletivo
e aquilo que em termos de física chamamos de matéria, eram, para a alquimia,
sempre uma única coisa. Vocês sabem que Jung também estava convencido de
que eram ambos a mesma coisa desconhecida, só que num dos casos observada
de fora, e no outro, de dentro. Se você a observa com a abordagem extrovertida,
de fora, então você a chama de matéria. Se você a observa com a abordagem
introvertida, de dentro, você a chama de inconsciente coletivo(1)?.
Sob este aspecto simbólico, a Natureza assume, não raro, uma personalidade
feminina, a da Mãe Natureza, a da Grande Deusa ancestral que estabelece
com os seus filhos, os seres humanos, uma relação de sintonia e de sincronicidade.
Mais do que isso, a Natureza enquanto entidade reverenciada coloca-se na
dimensão de profetisa, de portadora de uma revelação, de guia para a humanidade,
como na Figura 1, extraída da "Atalanta Fugiens" de Michel Maïer, de 1618,
onde "o alquimista, representado como um cavaleiro armado, é guiado pela
Natureza em seu combate contra o Fogo"(2) .
Notem que a Natureza costuma aparecer nua nos desenhos elaborados com
base
na mística dos alquimistas. A sua sensualidade e o seu despojamento de qualquer
roupa apresenta-se-nos como o testemunho da sua pureza, da energia da vida
em seu estado mais livre e mais espontâneo, sem as amarras impostas pela
civilização. O seu corpo erótico assume a dimensão do sagrado à medida em
que orienta o alquimista para a descoberta da sua vitalidade e dos seus
Mistérios, simbolizados, aqui, pelas chamas, da mesma maneira que uma bela
mulher seduz um homem para que ele descubra o doce mistério que há no templo
do seu amor, onde também o seu corpo ganha a dimensão de portal de um universo
mágico e onírico que somente a condição feminina pode revelar.
Desta forma, a Natureza induz o alquimista a desvendar o que há por trás
do seu véu de Isis, a dimensão divina dentro da matéria, palavra que, não
por acaso, é derivada do latim mater, que significa mãe. A visão de mundo
alquímica considerava a matéria como o corpo externo da Mãe-Natureza, da
Deusa alquímica também chamada de Anima Mundi: a "Alma do Mundo". Como uma
dama envolvente apesar da sua timidez, somente ela poderia revelar ao alquimista
as chaves para alcançar o seu grande e insondável mistério:
"Devido a tendência extrovertida da história da Ciência, modernos historiadores
da química sempre traduziram theion por enxofre, mas há contextos nos quais
este significado é extremamente duvidoso, podendo perfeitamente manter o
outro significado, de um misterioso material divino, o mistério de Deus
na matéria. A curiosidade do homem, que o levou a fazer experiências com
as substâncias, sempre se baseou na idéia de que, indiretamente, ele poderia
descobrir mais acerca da Divindade, ou do mistério divino, o mistério definitivo
da existência"(3).
Notem que, da mesma forma que em tradições matriarcais como o Tantra indiano
ou o culto às Deusas pagãs, a Alquimia não separa o plano físico e material
da Natureza do mundo do sagrado, antes considerando-o como o portal para
o divino.
Mesmo no Cristianismo, o culto ao feminino ainda buscou sobreviver à repressão
da Igreja oficial, de tendência patriarcal, através da devoção à Maria:
"Não são poucos os Padres que denunciam a contaminação do culto marial pelo
culto pagão às deusas, especialmente entre os montanistas e os "coliridianos",
conhecidos como grandes veneradores de Cibele (eram frígios). Escreve Santo
Epifânio: 'Outros, em sua loucura, querendo exaltar a Virgem, colocaram-na
no lugar de Deus'"(4).
Mesmo a conhecida oração católica que chama Maria de "Mãe de Deus", e
não
de Mãe do Filho de Deus, guarda um parentesco com a crença alquímica de
que a Natureza é a mãe da substância divina, a pedra filosofal, escondida
nas entranhas da matéria. Mas é claro que o patriarcalismo reduziu a figura
de Maria a uma simples coadjuvante do Deus masculino, além de haver excluído
do culto mariano o caráter sensual que havia no culto às Deusas antigas:
"Nos cultos pagãos se celebram as virgens que se fazem mães mediante uma
relação sexual-genital com o deus; há portanto uma verdadeira inseminação
no sentido direto desta palavra; com Maria a fé crê Ter havido uma suplência
de varão; uma virtude (dynamis) divina, o Espírito Santo, atuou nela e a
assumiu para fazê-la seu templo vivo e substancial; (...)"(5).
É claro que o ritmo de vida frenético da sociedade industrial quebrou, em
boa medida, esta ligação homem/natureza. Mas, para isso, também contribuíram
as ortodoxias religiosas que renegaram ou, no mínimo, reduziram o poder
feminino em nome do culto ao Deus-Pai, depositando as suas esperanças de
vida em um mundo além, alcançado somente após a morte da matéria ou com
a chegada do Juízo Final, o que pode predispor à aceitação da destruição
da natureza e do planeta Terra em si como um fato normal e até justificável.
Tais visões de mundo tendem a considerar, portanto, a natureza mais sob
o seu aspecto extrovertido, o de um espaço geográfico que não oferece nenhuma
possibilidade de ascese espiritual, do que sob o seu aspecto introvertido,
como um ente feminino vivo que nos aponta para a descoberta de uma realidade
espiritual panteísta, inserida nas próprias entranhas do corpo da Natureza,
formado pela sua matéria. No entanto, tais visões nem sempre estiveram separadas:
os alquimistas, com o elemento de experimentalismo científico aliado a uma
visão mágico-vitalista da realidade, são, talvez, um dos maiores exemplos
da tentativa de conciliação entre as abordagens extrovertida e introvertida
da Natureza em toda a História da humanidade:
"... a alquimia e a filosofia não se opunham como muitas vezes se disse,
pelo contrário se complementavam. Não somente os alquimistas eram chamados
de filósofos (6) e buscavam por isso a "pedra 'filosofal'" como a sua arte
era "a tentativa de junção entre o discurso científico e o simbólico"(7).
O alquimista se apresentava entre o sábio e o ignorante, entre os procedimentos
espirituais e os materiais, pretendendo atuar como uma ponte que os aproximasse.
A alquimia implicava um processo cognitivo nos dois planos, um racional
e experimental, outro divino e colocado além da razão"(8).
Também Carl Jung, cuja psicanálise do inconsciente foi profundamente influenciada
pela simbologia alquímica, evidencia a ligação da Ars Magna com a natureza.
Jung coloca o mundo natural como sinônimo de inconsciente coletivo:
"Enquanto na Igreja a diferenciação crescente de rito e dogma afastava a
consciência de suas raízes naturais no inconsciente, a alquimia e a astrologia
se empenhavam incessantemente em preservar da ruína a ponte que as ligava
à natureza, isto é, à alma inconsciente"(9).
Sallie Nichols, que foi sua aluna no Instituto de Zurique, continua esta
reflexão nos seguintes termos:
"O atual renascimento da figura feminina talvez seja uma reação compensatória
à degradação do elemento feminino em nossa cultura ocidental.
Em resposta a um desequilíbrio cultural semelhante, os alquimistas pintavam,
não raro, uma figura feminina na mandorla. Chamavam-lhe anima mundi, ou
alma do mundo. Concebiam-na como força engastada na matéria, que animava
todos os corpos, desde as estrelas do céu até os animais, as plantas e os
elementos da Terra. A tarefa de toda a vida do alquimista consistia em libertar
a anima mundi do seu encarceramento na prima matéria da natureza inconsciente.
Que ela representava qualidades não dissimilares das do Mundo do Tarô (10)
evidencia-se pelo comentário de Jung a seu respeito: "A idéia da 'anima
mundi'",
diz ele,"coincide com o inconsciente coletivo, cujo centro é o próprio
eu". Ele a caracteriza mais como "o guia da humanidade" que é, por sua vez,
"guiado por Deus"(11).
Uma conhecida representação pictórica da Anima Mundi (Figura 2) a dispõe
como uma mulher solar: uma luz se irradia dos seus órgãos genitais, emitindo
os raios de uma energia vital que anima todo o mundo manifesto. Indo ao
encontro da noção tântrica de que a energia sexual é a base da vida, esta
irradiação que se expande rumo ao Todo na forma de uma elipse não somente
gera, como mantêm e regenera a vida do universo. Tal obra foi desenhada
em 1574, o que nos leva à constatação de que, pouco mais de trezentos anos
antes da descoberta científica da libido por Freud, os alquimistas já faziam
uma associação entre sexualidade e vida dentro de uma concepção mais abrangente,
dentro de uma ordem cósmica. A mulher arquetípica que irrompe do centro
desta representação pictórica como a presença viva da Alma do Mundo não
somente vitaliza e sensualiza cada elemento dos reinos mineral, vegetal
e animal, assim como o humano, como também apresenta-se-nos como um portal
de comunicação entre o mundo manifesto e o oculto, conciliando os opostos:
"Encadeada ao Pai e ao Filho no mercúrio, gênero simbiótico da unidade,
a Alma do Mundo funciona como um mediador conectando o reino do corpo com
o reino do espírito"(12).
Prestemos atenção ao detalhe em que o autor encadeia a Anima Mundi "ao
Pai e ao Filho na unidade", ou seja: os alquimistas reconheciam a Alma do
Mundo como o elemento feminino da Santíssima Trindade, como o Espírito Santo.
Isso tem raízes até mesmo na representação figurativa do Espirito Santo
sob a forma da pomba que desceu sobre Jesus no momento do seu batismo por
João Batista, transformando-o no Cristo: a pomba é um arquétipo conhecido
da feminilidade e liga-se a valores igualmente femininos, como a paz e a
liberdade. Constata-se, pois, que os alquimistas foram avançados o suficiente
para empreender o resgate do feminino na espiritualidade em uma época onde
as condições não eram tão favoráveis assim para este ousado empreendimento,
antecipando a atitude de alguns teólogos dissidentes contemporâneos, como
o ex-Frei Leonardo Boff:
"O Espírito Santo é feminino em hebraico (ruah)(13) e está sempre associado
ao mistério da Vida, da Graça, da Geração como no caso de Maria que, sob
a potência do Espírito Santo, concebeu Jesus Cristo"(14).
É claro que certos dogmas básicos do Cristianismo, como o da concepção
de Maria pelo Espírito Santo, continuam a ser válidos para Boff. No entanto,
o teólogo rompe em larga medida com o patriarcalismo da ortodoxia católica
ao afirmar:
"Se admitirmos que o ser humano enquanto masculino e feminino é verdadeiramente
semelhante a Deus, então somos induzidos, pela lógica da própria afirmação,
a admitir que Deus mesmo é prototipicamente masculino e feminino. Na ocorrência
que nos interessa, o feminino do ser humano constituiria um registro revelador
do feminino de Deus"(15).