 GRANDES BRASAS DA HISTÓRIA Sempre gostei do samba “Portela na Avenida”, de Mauro Duarte e Paulo César Pinheiro. Mesmo antes de escutar a maravilhosa gravação da Clara Nunes, já conhecia a música das rodas de samba. É um samba forte, carregado de emoção, contagiante.
Recentemente, lendo a biografia da Clara Nunes (muito bem escrita por Vagner Fernandes), travei conhecimento de como se deu a composição da obra-prima. Para quem não sabe, Paulo César Pinheiro, o maior letrista da história da MPB, era casado com a Clara.
Segue o depoimento do PC Pinheiro para o biógrafo a respeito do samba:
“Em 1970 estourou um samba do Paulinho da Viola, o ‘Foi um rio que passou em minha vida’. Depois disso, ninguém fez samba falando da Portela. E ela era doida pra gravar um que falasse. Aí ela me pediu:
— Não dava pra você fazer um samba falando da Portela?
— Mas eu não sou Portela, eu sou Mangueira.
— Mas você sabe fazer. E depois que o Paulinho fez aquele samba, ninguém faz mais. Eu já pedi a outros compositores da Portela e ninguém fez. Não dá pra você fazer pra mim?
— Posso tentar. Não te prometo, mas posso tentar.
Aí falei com o Mauro Duarte, que era portelense:
— Mauro, a Clara pediu um samba pra Portela. Então, você que é portelense e meu parceiro me ajuda nessa. Mas eu não tenho idéia não. Até porque o samba do Paulinho é definitivo. É difícil fazer um samba para a escola depois desse.
Dias depois, o Mauro veio com uma idéia musical, um pedacinho:
— Isso aqui é algo que pode ser o tal samba
— Canta aí
Eu gravei e fiquei pensando naquilo. Um dia, andando na sala, me deparei com a imagem do Espírito Santo, acima do altar. A Clara gostava muito de coisas antigas. Por onde passava comprava algo antigo. Em uma dessas, trouxe um nicho de 200 anos, uma espécie de oratório. Dentro dele, você abria a porta e tinha Nossa Senhora Aparecida, com um monte de orixás misturados. Eu ficava andando e pensando como fazer o samba. E na hora em que bati o olho na Nossa Senhora, linda, eu vi o manto azul e branco, que são as cores da Portela. Quando veio isso na minha cabeça, resolvi misturar o religioso com o profano, que era o estilo dela. A pomba do Espírito Santo virou a águia da Portela, o manto de Nossa Senhora virou bandeira, e por aí eu fui. O samba virou sucesso da noite pro dia. Mas quando o compus quis mostrar, na verdade, o que era a Clara. Uma cantora que estava na rua, em um bloco, na igreja, no terreiro, no kardecismo (...)”
Pois bem, esta semana, fuçando nos meus discos, encontrei a versão de “Portela na Avenida” gravada no disco “Cristina Buarque e Mauro Duarte”. Fiquei arrepiado com a cadência, com o lindo coro desta gravação. Eu sei que o samba consagrado foi feito pra Clara cantar e sei que a versão original é a mais clássica, mas vou colocar aqui a versão posterior, porque acho mais bela.  Um ser de luz (João Nogueira - Paulo César Pinheiro - Mauro Duarte)
Um dia um ser de luz nasceu Numa cidade do interior E o menino Deus lhe abençoou De manto branco ao se batizar Se transformou num sabiá Dona dos versos de um trovador E a rainha do seu lugar Sua voz então ao se espalhar Corria chão, cruzava o mar Levada pelo ar Onde chegava espantava a dor Com a força do seu cantar
Mas aconteceu um dia Foi que o menino Deus chamou E ela foi pra cantar Para além do luar Onde moram as estrelas A gente fica a lembrar Vendo o céu clarear Na esperança de Vê-la, sabiá
Sabiá Que falta faz tua alegria Sem você, meu canto agora é só Melancolia Canta, meu sabiá, voa, meu sabiá Adeus, meu sabiá, até um dia  Brasil mestiço O casamento de Clara com Paulo César Pinheiro, em 1975, inaugurou uma nova fase na carreira da intérprete. O álbum Canto das Três Raças, de 1976, produzido por ele, trazia Clara mais madura, arriscando-se para além do território do samba. Modinhas, canções mais sérias, pontos de capoeira... havia de tudo um pouco nesse álbum, mostrando a versatilidade da intérprete. Ela começava a se sentir madura e era reconhecida por isso: Clara foi consagrada pela crítica como a melhor cantora do ano. Na mesma época, ela e Paulo compraram um teatro na Gávea, batizado de Clara Nunes, e foi lá que ela estreou o show Canto das Três Raças, o primeiro individual de sua carreira. A preocupação do espetáculo em mostrar um pouco das três raças que formavam o povo brasileiro repercutiu nos discos seguintes de Clara. A preservação da memória musical e a dignidade que poderia ser conferida ao povo por meio das canções foram ficando cada vez mais fortes em suas escolhas. E elas, por sua vez, cada vez mais engajadas: Clara participou de diversos eventos com fundo político. Em 1979, com um time de artistas de primeira, que contava com Martinho da Vila, Dorival Caymmi, Djavan, Edu Lobo e João do Vale, organizado por Chico Buarque e Fernando Faro, Clara foi para Angola montar o espetáculo Kalunga. Conheceu uma parte da realidade da África, tão musical e sofrida quanto o Brasil, apresentou-se em praça pública e voltou com uma canção especial na bagagem: Morena de Angola, feita por Chico Buarque especialmente para ela. A música tornou-se um sucesso e uma espécie de emblema de Clara, sempre lembrada pelos versos e pela cadência morena. Brasil Mestiço e Nação, seus últimos discos, são, paralelamente, os primeiros do que parecia um longo caminho. São o encontro da intérprete com sua vocação: a de festejar, por meio do canto, a identidade tão rica e eclética de um mesmo povo. Eu quero uma batucada No dia 2 de abril de 1983, Clara Nunes morreu, vítima de uma anafilaxia provocada por uma operação de varizes. Batuques de terreiro, tamborins do samba, violas do interior do Brasil saudaram a memória de Clara e sua voz, que, certamente, continua ressoando e organizando festas - agora ao lado de todos os seus santos, quem sabe? Por aqui, deixou admiradores, fez escola, é venerada. A cantora paulistana Fabiana Cozza prestou atenção nas aulas: “Ouvi muito a Clara e me sinto herdeira de seu trabalho e riqueza musical. Ela empresta sua voz ao Brasil negro e exalta sua cultura. Fala de seu universo sagrado, conta sobre os orixás, as comidas e o cotidiano do homem brasileiro”. Em um de seus textos, a jornalista Ana Maria Bahiana se pergunta por que os brasileiros, donos de um legado musical invejável, tropeçam desesperados em busca de ídolos inexistentes, cegos para a qualidade dos intérpretes e das canções que se constroem e se renovam a cada instante. Clara Nunes talvez seja um dos poucos exemplos em que o reconhecimento veio com a obra: aclamadas pelo público, suas brejeiras interpretações se tornaram eternas ainda enquanto nasciam para nossos ouvidos. Cronologia: 1942 - Nasce em Paraobeba, atual Caetanópolis, em Minas Gerais 1944 - Perde o pai, e logo em seguida a mãe, sendo criada por uma das irmãs 1952 - Ganha, aos 10 anos, seu primeiro concurso de calouros. 1956 - Começa a trabalhar como tecelã 1958 - Muda-se para Belo Horizonte, para morar com a irmã Vicentina 1960 - Ganha o primeiro lugar na fase mineira do concurso "A Voz de ouro do ABC". 1963 - Apresenta um programa próprio na TV Itacolomy 1965 - No Rio de Janeiro, é aprovada em teste da gravadora Odeon 1966 - Lança seu primeiro LP, "A voz adorável de Clara Nunes". 1968 - Grava seu primeiro sucesso, "Você passa. Eu acho graça". 1971 - Viaja para Luanda e volta determinada a cantar algo próximo das raízes brasileiras.
Lança seu primeiro LP produzido por Adelzon Alves 1974 - Faz sucesso ao lado de Paulo Gracindo em "Brasileiro, profissão esperança" 1975 - Interpreta "Macunaíma" na avenida Casa-se com Paulo César Pinheiro, que passaria a produzir seus discos "Claridade" bate recorde de vendas - nunca uma mulher havia vendido tantas cópias de disco 1977 - Inaugura o Teatro Clara Nunes, no Rio de Janeiro, com o show "O canto das três raças". 1981 - Estréia o show "Clara Mestiça", dirigida por Bibi Ferreira, depois de três anos afastada dos palcos 1982 - Seu sucesso chega à Alemanha e ao Japão, onde grava um especial para a NHK 1983 - Devido a complicações em uma cirurgia de varizes, falece depois de 28 dias de coma profundo. Uma multidão acompanha seu velório no Portelão e segue o cortejo até o cemitério São João Batista.
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